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SAÚDE E HÁBITOS

O que você quer ser quando envelhecer? Tem feito o que é preciso?

Em sua nova coluna, o Dr. Adilson Silvestre convida à reflexão sobre como o autocuidado, a disciplina e as escolhas do presente definem nossa autonomia e longevidade no futuro.

Redação

20/08/2026, 10:49 · 4 min de leitura

O que você quer ser quando envelhecer? Tem feito o que é preciso?

Se eu perguntasse como você gostaria de estar aos 70, 80 ou 90 anos, provavelmente a resposta não seria simplesmente: “vivo”.

A maioria de nós deseja chegar lá com autonomia, lucidez, força para caminhar, disposição para estar com a família, capacidade para tomar as próprias decisões e liberdade para continuar fazendo aquilo de que gosta.

Mas existe uma segunda pergunta, talvez mais difícil:

O que você tem feito hoje para aumentar as chances de viver esse futuro?

Cuidar da saúde está cada vez mais presente nas nossas conversas. Com a internet, nunca tivemos tanto acesso à informação. Sabemos que precisamos praticar exercícios de força principalmente, alimentar-nos melhor com mais proteínas, dormir adequadamente, beber água, cuidar das emoções e evitar hábitos prejudiciais.

Na maioria das vezes, portanto, o problema já não é apenas saber o que deve ser feito. O grande desafio é transformar conhecimento em comportamento.

Durante muito tempo, criou-se a ideia de que cuidar da saúde significava procurar o médico de tempos em tempos, fazer alguns exames e, quando necessário, tomar os medicamentos prescritos.

Tudo isso é importante. Mas isso é apenas uma parte do cuidado.

Medicamentos de uso contínuo, na maioria das vezes, ajudam a controlar problemas que já existem, mas não substituem a prevenção. Remédios para pressão alta, diabetes ou colesterol, por exemplo, são importantes para reduzir riscos quando essas condições já estão presentes. Sem controle, elas aumentam a chance de complicações cardiovasculares, como AVC e infarto. Ainda assim, muitas dessas situações podem ser prevenidas ou adiadas com hábitos saudáveis adotados desde mais cedo.

Porém, existe algo que nenhum medicamento ou exame consegue fazer por nós: substituir nossos hábitos cotidianos, é aí que entra o autocuidado.

Ouvi certa vez uma senhora dizer nas redes sociais uma frase que nunca mais esqueci: “Criança faz o que quer. Adulto faz o que precisa ser feito.” Gosto também de outra frase, esta de minha autoria: “Maturidade não tem nada a ver com idade, tem a ver com escolhas!”. Como geriatra, atendo pessoas de diferentes idades, de jovens a idosos. Vejo muitos pacientes de 70 ou 80 anos que ainda fazem escolhas imaturas: buscam apenas o que é confortável, comem o que querem e passam o dia no sofá, muitas vezes consumindo doces sem medida, esse é um idoso adolescente.

Podem parecer frases duras, mas elas traduzem uma verdade interessante. Cuidar da saúde frequentemente exige fazer escolhas que não oferecem recompensa imediata. Exige uma pessoa virtuosa dotada de disciplina, constância, autocontrole, renuncia à prazeres momentâneos, etc.

É levantar e se exercitar quando o sofá parece mais convidativo. E não apenas para emagrecer ou melhorar a aparência. Precisamos de músculos para envelhecer.

A atividade física resistida (musculação) ajuda a preservar força, mobilidade e capacidade funcional e está associada à redução do risco de diversas doenças crônicas. A Organização Mundial da Saúde recomenda aos adultos entre 150 e 300 minutos de atividade física aeróbica moderada por semana, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias.

Também precisamos aprender a comer pensando não apenas na satisfação daquele momento, mas no organismo que queremos sustentar durante décadas.

Isso não significa viver de dieta ou transformar comida em inimiga. Significa equilíbrio. Uma alimentação saudável deve privilegiar alimentos variados, nutritivos e proteicos além de limitar o consumo excessivo de açúcares, sódio e gorduras pouco saudáveis.

E existe ainda a chamada alimentação emocional: que é comer o que a gente gosta, não o que é necessário ao nosso corpo, a chamada alimentação consciente. Esse é um assunto importante e merece um editorial exclusivo no futuro.

Outro pilar fundamental é o sono, Dormir adequadamente faz parte do cuidado com a saúde física, cognitiva e emocional. E quando existe dificuldade persistente para dormir, ronco importante, pausas respiratórias ou sonolência excessiva durante o dia, devemos investigar a causa.

A primeira medida que temos que tomar para dormir é a higiene do sono, tema que vamos abordar também em outro editorial, que nada mais é que a forma correta de se dormir.

Medicamentos para dormir não devem ser encarados como uma solução automática. Em determinadas situações, podem ser necessários, mas precisam ser individualizados e acompanhados pelo médico. Especialmente com o avançar da idade, alguns medicamentos que atuam sobre o sistema nervoso central podem aumentar riscos como quedas e alterações cognitivas.

E não podemos esquecer da saúde emocional, a vida inevitavelmente nos apresenta perdas, frustrações, mudanças e situações que fogem do nosso controle. Aprender a lidar com essas experiências, cultivar bons relacionamentos, desenvolver resiliência, exercitar o perdão, encontrar propósito e, para quem tem fé, cuidar também da espiritualidade são dimensões importantes da vida humana.

Talvez seja esse um dos sentidos mais interessantes da medicina preventiva: não viver com medo de adoecer, mas construir condições para permanecer independente e funcional pelo maior tempo possível.

A própria Organização Mundial da Saúde relaciona o envelhecimento saudável à manutenção da capacidade funcional — ou seja, à possibilidade de continuar sendo e fazendo aquilo que valorizamos ao longo da vida.

Nos próximos textos, quero conversar com vocês sobre cada um desses assuntos: musculatura, exercício, alimentação, sono, memória, emoções, medicamentos, espiritualidade e prevenção.

E deixo uma reflexão para começarmos essa jornada:

Que pessoa você deseja ser quando envelhecer?

Quem cuida da sua saúde é VOCÊ e não o seu médico.

A saúde do futuro é construída, em grande parte, pelas escolhas que repetimos no presente, o seu “eu” de 70, 80 ou 90 anos poderá agradecer pelas decisões que você começou a tomar hoje.

Dr. Adilson Silvestre

Médico Geriatra

#Coluna#Opinião#Saúde#Saúde Mental
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