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Geriatria: cuidar hoje da saúde que queremos ter amanhã
Em sua coluna de estreia, o médico geriatra Dr. Adilson Silvestre explica por que o envelhecimento saudável deve ser construído ao longo de toda a vida.

Olá! Meu nome é Adilson Silvestre, sou médico geriatra e tenho a alegria de exercer minha profissão na querida cidade de Paranavaí. A partir de agora, estarei com vocês quinzenalmente neste espaço para conversarmos sobre saúde, prevenção, longevidade e, principalmente, sobre como podemos envelhecer com mais qualidade de vida, autonomia e independência.
Escolhi a Geriatria por vocação. Sempre acreditei em uma Medicina capaz de olhar para o ser humano como um todo, e não apenas para uma doença, um exame alterado ou um órgão específico. Mais do que tratar uma enfermidade quando ela aparece, sempre me interessou compreender o que podemos fazer antes disso: como preservar a saúde e reduzir, dentro do possível, os riscos de adoecimento e de perda da nossa capacidade funcional ao longo dos anos. E é justamente aqui que encontramos um dos maiores equívocos relacionados à minha especialidade.
Quando se fala em geriatra, muitas pessoas ainda imaginam imediatamente um paciente muito idoso, frágil, com dificuldade para caminhar, dependente dos familiares ou já apresentando algum quadro de demência. Sim, esses pacientes fazem parte da nossa rotina e merecem um cuidado especializado, atento e individualizado. Mas limitar a Geriatria a esse cenário é conhecer apenas uma parte da especialidade.
A Geriatria não se preocupa somente com quantos anos uma pessoa vai viver. Preocupa-se, sobretudo, com a maneira como ela chegará a esses anos.
A Organização Mundial da Saúde trabalha com o conceito de “envelhecimento saudável” associado à manutenção da capacidade funcional — em outras palavras, preservar pelo maior tempo possível aquilo que permite à pessoa continuar fazendo o que é importante para ela. Isso inclui caminhar, trabalhar, tomar decisões, manter relações sociais, realizar atividades cotidianas e conservar sua independência.
Por isso, gosto de dizer que o envelhecimento não começa quando ficamos idosos. Ele é um processo que acontece ao longo de toda a vida.
Isso não significa que todas as pessoas aos 30 ou 40 anos necessariamente precisem de acompanhamento com um geriatra. Significa algo mais importante: muitas das condições que irão determinar nossa saúde aos 60, 70 ou 80 anos começam a ser construídas décadas antes. É na meia-idade, muitas vezes, que hábitos, fatores de risco e pequenas alterações começam a se acumular silenciosamente.
A Geriatria tem justamente esse olhar mais amplo. O cardiologista cuida de forma especializada do coração; o neurologista, do sistema nervoso; o urologista, do sistema urinário e reprodutor masculino; o ginecologista, da saúde da mulher. Todos são fundamentais. O papel do geriatra não é substituir esses profissionais, mas analisar o indivíduo de forma integrada, especialmente à medida que o envelhecimento começa a tornar essa interação entre diferentes aspectos da saúde cada vez mais importante.
E quando falamos em prevenção, existe outro conceito que precisamos rever: medicina preventiva não significa simplesmente fazer muitos exames.
Exames são importantes e, quando indicados corretamente, permitem identificar doenças e fatores de risco precocemente. Mas fazer exames periodicamente enquanto mantemos hábitos prejudiciais não é suficiente para construir saúde.
O autocuidado diário provavelmente terá um impacto muito maior sobre o futuro do que a maioria das pessoas imagina.
Movimentar-se regularmente, preservar a musculatura, alimentar-se adequadamente, dormir bem, cuidar da saúde mental, manter vínculos sociais, evitar o tabagismo, controlar doenças como hipertensão e diabetes e utilizar medicamentos de maneira adequada são atitudes que se acumulam ao longo dos anos. A própria Organização Mundial da Saúde aponta a inatividade física como um importante fator de risco para doenças crônicas e associa níveis insuficientes de atividade física a um risco de mortalidade de 20% a 30% maior em comparação com pessoas suficientemente ativas.
Portanto, talvez uma das mensagens mais importantes deste nosso primeiro encontro seja esta:
Não precisamos esperar envelhecer para começar a pensar em como queremos envelhecer.
Meu objetivo neste espaço será exatamente esse. A cada quinze dias, quero trazer informações práticas e acessíveis sobre memória, força muscular, alimentação, sono, medicamentos, prevenção de quedas, saúde cardiovascular, autonomia, longevidade e tantos outros assuntos que interferem diretamente na maneira como vivemos e envelhecemos.
Porque viver muitos anos é uma conquista. Mas chegar a esses anos com saúde, lucidez, autonomia e capacidade para continuar fazendo aquilo que amamos é um objetivo ainda maior.
E essa construção começa muito antes do que costumamos imaginar.
Dr. Adilson Silvestre
Médico Geriatra