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Desenvolvimento Infantil

Brincar ainda é necessário? O valor do brincar em um mundo tecnológico

O uso excessivo de telas na infância pode impactar o comportamento e o desenvolvimento emocional; entenda como o brincar no mundo real é essencial para o crescimento saudável.

Redação

24/06/2026, 19:11 · 4 min de leitura

Brincar ainda é necessário? O valor do brincar em um mundo tecnológico

Vivemos em uma sociedade cada vez mais acostumada a clicar em vez de tocar, mais conectada ao mundo digital, onde tudo é postado, compartilhado convertido em curtidas. Nessa nova realidade, brincar na rua, correr, se sujar, criar histórias e interagir presencialmente com outras crianças tornouse cada vez menos frequente, sendo muitas vezes substituído por telas, através jogos on-line, vídeos, e afins oferecidos pelo universo digital.

Mas e o impacto dessa mudança em uma criança? Qual a importância do brincar na era digital?

Para o pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott, o brincar é essencial porque é por meio dele que a criatividade se manifesta. O cérebro infantil está em constante desenvolvimento, e a interação humana, o brincar e a exploração do mundo real são fundamentais e necessários nesse processo. Quando as telas são usadas em excesso, elas podem ocupar o espaço dessas experiências que são tão importantes e podem comprometer de muitas formas o desenvolvimento de habilidades sociais, emocionais e cognitivas da criança.

Nesse sentido, um ambiente facilitador no qual os pais e cuidadores brincam, conversam, escutam e além de tudo realmente olham para a criança, favorece um desenvolvimento mais saudável. A criança necessita de relações significativas e de experiências reais para construir recursos internos que a acompanharão ao longo da vida.

Muitos pais relatam que seus filhos fazem birra, têm dificuldade em aceitar limites e não conseguem lidar com frustrações. No entanto, nem sempre percebem que o excesso de telas pode contribuir para esses comportamentos. Dentro do mundo digital, a criança recebe uma enorme quantidade de estímulos e tem acesso imediato ao que deseja, apenas com um simples clique na tela. Mas quando se desconecta e “retornar para a realidade”, encontra situações que exigem espera, paciência e tolerância, habilidades que ainda estão em construção, e são afetadas uma vez que nessas situações não podem “pular anuncio” , sendo assim a criança pode reagir com irritação, agressividade e dificuldade de autorregulação emocional diante das situações do dia a dia.

Isso acontece, em parte, devido à liberação de dopamina, um neurotransmissor relacionado às sensações de prazer e recompensa. O uso excessivo de videogames, redes sociais e outros conteúdos digitais pode gerar picos frequentes de dopamina, seguidos por períodos de redução dessa estimulação, fazendo com que a criança se sinta mais irritada e apresente menor controle sobre suas emoções.

Além disso, a exposição prolongada às telas, especialmente antes de dormir, pode interferir na produção de melatonina devido à luz azul emitida pelos dispositivos eletrônicos. Como consequência, observa-se uma piora na qualidade do sono, aumento da sonolência durante o dia, dificuldades de concentração e impactos indiretos na aprendizagem escolar.

É importante destacar que a tecnologia representa um grande avanço para a sociedade e oferece inúmeros benefícios. Ela faz parte da realidade de crianças e adolescentes e não deve ser vista como uma vilã. Contudo, a intensidade e a forma como as crianças são expostas ao ambiente digital merecem atenção e cuidado.

Para um desenvolvimento saudável, a criança precisa de um ambiente acolhedor, seguro e “bom o suficiente”, como propõe Winnicott, capaz de prepará-la gradualmente para o mundo. Esse ambiente é encontrado, principalmente, dentro de casa, por meio da presença e do vínculo com os pais. E essa presença vai além do estar fisicamente presente; ela envolve disponibilidade emocional, escuta e conexão.

No brincar, a criança fala, cria, imagina, expressa medos, desejos e sentimentos. Ela elabora experiências, aprende a resolver problemas, desenvolve a autonomia, exercita a criatividade e aprende a se relacionar consigo mesma e com os outros. Por isso, é fundamental que os pais reconheçam o valor do brincar e proporcionem às crianças um ambiente que favoreça essas experiências.

A primeira infância, compreendida entre os 0 e os 6 anos de idade, constitui um período crítico de crescimento e maturação. O corpo e, especialmente, as estruturas cerebrais encontram-se em intenso processo de desenvolvimento. É por meio das interações com o ambiente e com os cuidadores que a criança amplia suas habilidades físicas, cognitivas, emocionais e sociais. Interferências ou dificuldades nessa fase podem produzir efeitos significativos em sua trajetória de desenvolvimento.

Diante disso, momentos de lazer ao ar livre, brincadeiras no parque, contato com a natureza e tempo de qualidade em família ajudam a reconectar a criança com o mundo real. Essas experiências favorecem a autonomia, o desenvolvimento emocional, a interação social e a capacidade de lidar com desafios e frustrações. Mais do que isso, uma infância rica em brincadeiras deixa memórias afetivas, histórias e aprendizados que acompanharão a criança por toda a vida.

Brincar, portanto, continua sendo uma necessidade fundamental. Em um mundo cada vez mais tecnológico, garantir tempo, espaço e relações que favoreçam o brincar é investir no desenvolvimento integral da criança e na formação de adultos mais saudáveis emocionalmente, mais criativos e mais preparados para viver em sociedade.

Instagram: @alinemachado.psicologa

Aline Machado

𝘋𝘢 𝘦𝘴𝘱𝘦𝘳𝘢 𝘢𝘰 𝘤𝘳𝘦𝘴𝘤𝘦𝘳: 𝘤𝘶𝘪𝘥𝘢𝘥𝘰 𝘱𝘴𝘪𝘤𝘰𝘭ó𝘨𝘪𝘤𝘰 𝘤𝘰𝘮 𝘢𝘧𝘦𝘵𝘰.
Psicóloga Perinatal e Infantil
CRP 08/45733.

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